Com a atriz e neurocientista Mayim Bialik, o autor de Sapiens e Homo Deus refletiu sobre por que tememos a inovação

Moderando um painel patrocinado pela Bayer, Niko Woischnik, fundador da Tech Open Air (TOA) recebeu duas mentes brilhantes: a atriz, autora e neurocientista Mayim Bialik, que fez sucesso na série The Big Bang Theory, e o historiador e filósofo Yuval Noah Harari, autor dos best-sellers Sapiens, Homo Deus e 21 Lições para o Século 21.

Niko começou pelas peculiaridades de Mayim, que faz tanto sucesso no mundo da TV e comédia quanto no da ciência e a questionou sobre os paralelos “surpreendentes” entre esses dois mundos. “Uma das coisas mais legais da minha vida na academia, faz 12 anos desde que me graduei, é que ninguém liga para o que eu pareço. Claro que como uma mulher cientista temos desafios diferentes, mas na maior parte, tenho uma vida privada, no sentido de que aquilo que está entre meus ouvidos é o principal na minha carreira científica”, disse, mas acrescentando em seguida que “ego existe em todos os lugares” e muitas pessoas ficariam surpresas em saber que há personalidades na academia e ciência que não são muito diferentes das potências do mundo das produções (de TV). Segundo ela, nos dois campos, há muito ego e briga por posições. “Como neurocientista, é bom saber que há gente problemática em qualquer área, não estamos imunes a isso”, disse, rindo.

Harari foi questionado sobre o fato de ter admitido publicamente gostar mais de TV do que de romances. E respondeu que também lê romances, mas na maior parte do tempo prefere TV, basicamente, porque seres humanos são animais de storytelling e, segundo ele, a TV é uma ferramenta incrível para criar e comunicar histórias, talvez a mais poderosa da nossa época. “Minha missão também, como escritor e criador, é atingir uma audiência o mais abrangente possível. E a TV com frequência faz isso melhor que os romances”, pontuou. Destacou em particular o poder da comédia, pois, segundo ele, não tem nada que desafie mais e melhor o poder do que o humor.

Já sobre o tema que deu título ao painel em si – Por que tememos a inovação? –  Niko lembrou que Harari em muitos de seus livros enfatiza que uma coisa com a qual a humanidade sempre vai poder contar é a mudança e, então, por que ainda temos medo de mudança e inovação? Segundo o historiador, primeiro, porque é inconveniente começar de novo, aprender coisas novas. Não é fácil e, muitas vezes, é perigoso. “Se olhar para a biologia, 99% das mutações são ruins para você. É um percentual muito baixo que realmente melhora as coisas. Muitas startups falham”, disse. Fez, depois, também um paralelo com as grandes revoluções na história. Para Harari, as mais radicais pelo menos no começo trouxeram mais miséria que felicidade. Geralmente, as mais amenas são melhores, pois o ser humano não é capaz de completamente repensar e reinventar o mundo e quando tenta mudar muita coisa muito rapidamente, é sempre um desastre. “Se comparar a Revolução Bolchevique, em 1917, com a Revolução Americana – ou dita “revolução”- do fim do século 18, uma das razões de a americana ter feito muito melhor é que quis mudar muito menos”, argumentou. Para ele, se olharmos um período largo da história, especialmente se você é um cidadão médio, muitas das revoluções que hoje celebramos não melhoraram a vida do indivíduo comum e citou como um dos maiores exemplos a revolução agrícola. A mudança de viver como caçadores para se tornar agricultores foi uma boa ideia, disse, se você era um rei, alto clérigo ou algo assim. Mas para os agricultores médios, tornou a vida muito mais difícil. “Um agricultor médio no Egito antigo ou na China trabalhava muito mais duro que os antigos caçadores. Tinham muito menos em retorno, sofriam muito mais por doenças”, pontuou o historiador, para quem a maioria das doenças contagiosas e epidemias na história começaram com a agricultura. E no topo disso tudo, as pessoas naquele momento começaram a ter de lidar com a desigualdade social e política, que também emergiu naquela época: “Se você estava vivendo no início da revolução agrícola e estava apreensivo sobre essas novas ideias e gadgets você estava absolutamente certo de estar apreensivo!”.

Mayim deu a versão neurocientífica da resposta do historiador. “Apesar de os nossos cérebros serem muito adaptativos e orientados a aprender, em último caso, perseguimos o caminho da menor resistência”, afirmou, lembrando também que as respostas das pessoas às novidades e tecnologias são muito variáveis. Contou do pai, que foi da primeira geração a usar internet, mas certo dia disse “Não acho que isso vai decolar da forma como vocês dizem”. Bem-humorada, a cientista, agradeceu ao fato de ele ter falecido há seis anos pois estaria enlouquecendo com toda a mudança acontecendo no mundo neste momento. Contou, ainda, que ela própria, vinda de um família humilde ficou abismada quando na casa de uma amiga com melhor nível de vida conheceu um microondas.

Mayim deu a versão neurocientífica da resposta do historiador. “Apesar de os nossos cérebros serem muito adaptativos e orientados a aprender, em último caso, perseguimos o caminho da menor resistência”, afirmou, lembrando também que as respostas das pessoas às novidades e tecnologias são muito variáveis. Contou do pai, que foi da primeira geração a usar internet, mas certo dia disse “Não acho que isso vai decolar da forma como vocês dizem”. Bem-humorada, a cientista, agradeceu ao fato de ele ter falecido há seis anos pois estaria enlouquecendo com toda a mudança acontecendo no mundo neste momento. Contou, ainda, que ela própria, vinda de um família humilde ficou abismada quando na casa de uma amiga com melhor nível de vida conheceu um microondas.

Com o assunto voltado ao que a história ensina sobre como combater a resistência à inovação científica, hoje muito presente na desinformação e teorias da conspiração, Harari disse que tudo isso e a ciência não são, na verdade, contraditórias, mas existem lado a lado. Segundo ele, para controlar ou gerir qualquer sociedade humana a ciência nunca será suficiente, pois nos diz a verdade ou uma aproximação da verdade sobre o mundo, mas a verdade quase nunca une as pessoas. “Você não pode se candidatar numa eleição dizendo a verdade de uma fórmula científica. Para unir as pessoas, politicamente, religiosamente, socialmente, precisa contar a elas uma história que não precisa necessariamente ser verdade. As mais famosas histórias na história eram ficções religiosas, nacionalistas, econômicas”, ponderou. O filósofo destacou que as pessoas podem ser as duas coisas: extremamente científicas, racionais e lógicas para resolver um problema técnico e ser completamente irracionais e sem crítica quando avaliam as mitologias e histórias básicas de suas sociedades. “Infelizmente, os seres humanos têm essa habilidade de, de modo seletivo, ligar ou desligar suas faculdades críticas e racionais”, afirmou Harari. Lembrou também que quando a internet chegou todos pensaram que poderíamos compartilhar mais informação e isso levaria a mais liberdade, pensamento científico e não aconteceu, porque informação não é a verdade e ficção também é informação, assim como fakes news. Citou casos da época de caça às bruxas em que a mídia impressa ajudou a propagar não a ciência de Copernico ou Galileu, mas os “faça você mesmo” sua caça, levando à morte de milhares de pessoas, em sua maioria mulheres. E alertou que hoje pessoas dizem “É verdade, vi no YouTube”, mas manifestou esperança de que nossa curva de aprendizado, seja, agora, um pouco mais rápida, do que na época da impressão.

Automação e renascença criativa

Questionado pelo moderador sobre se a visão propalada de que processos tecnológicos como a automação podem libertar as pessoas a uma nova renascença criativa, o autor de Sapiens ressaltou que sempre que alguém vem com uma nova ideia de tecnologia ou sistema social etc,, apresenta isso da forma mais positiva e otimista possível, mas é preciso tomar cuidado, porque pode haver efeitos negativos. Retomou o exemplo da internet e as promessas nos anos 1990, no âmbito social e político, de que traria uma nova era de democracia, tolerância, cooperação, porque as pessoas poderiam compartilhar informação e conhecer umas às outras. Agora, tudo soa extremamente ingênuo. “Claro, se você tem uma startup, é um empreendedor, vai focar no cenário mais positivo (e estes existem, é verdade), mas então vem o trabalho de gente como eu de apresentar o outro lado, os perigos. Não acho que exista uma única tecnologia na história que tenha somente aspectos positivos. Uma faca pode ser usada para cortar salada, para usar numa cirurgia e salvar a vida de alguém e, obviamente, para assassinar alguém. O objeto não diz o que fazer com ele”, alertou.

E levou a mesma comparação ao mundo das tecnologias de comunicação em massa. No século 20, lembrou, o rádio foi usado para transmitir grande quantidade de música e opiniões políticas, mas também foi monopolizado por um governo para fazer lavagem cerebral na população e criar um regime totalitário. “O rádio não se importa com o que você faça com ele, então, isso é algo que precisamos constantemente relembrar os inovadores e pessoas à frente desses desenvolvimentos”, acrescentou Harari. Em outro exemplo, que diz ser “quase ultrajante”, lembrou que hoje para alguém ser um médico, em muitas universidades e países, precisa ter um curso ou vários sobre ética médica. Não terá o diploma, a menos que tenha algum background em ética médica. Mas para ser um codificador não precisa, embora estes estejam modelando toda a sociedade: “Não estão apenas desenvolvendo algoritmos, estão codificando sociedades e economias inteiras”. E defendeu um curso de “ética para desenvolvedores”, a quem queira trabalhar no Vale do Silício.

Já sobre o que 20 anos dessa evolução tecnológica toda ensinou e poderá ser usado em relação ao que virá por aí na ciência, Harari responde que é “basicamente, não ser tão ingênuos”. E deu um recado aos desenvolvedores/empreendedores. “Quando desenvolver algo pense no político ou líder que mais teme no seu país ou no mundo e no que ele ou ela poderia fazer com aquilo que você está desenvolvendo. Depois volte ao laboratório e talvez faça a coisa uma pouco diferente, porque nós temos escolha. A forma como desenvolvemos tecnologia depende de nós”, alertou.

Parte da crítica do historiador recaiu sobre as tecnologias aplicadas à publicidade. Citou que nos últimos anos as pessoas mais inteligentes, passaram muito tempo pensando sobre como fazer as outras pessoas clicarem em anúncios e em links. “E eles resolveram isso! Infelizmente, eles resolveram isso. E agora vemos as consequências”, disse. Para ele, há problemas importantes aos quais pessoas inteligentes poderiam dedicar anos de suas vidas para solucionar, como apps para monitorar corrupção nos governos. “Por que não tenho um app em que digite o nome de um político e apareça em dois segundos uma lista com todos os amigos ou parentes que ele ou ela nomeou para sua administração? Quero esse tipo de app. Por que ninguém está fazendo?”, questionou.

O autor de Homo Deus, ressaltou, ainda, que nos últimos 20 anos vimos uma grande revolução em tecnologia da informação, mas a grande coisa virá quando a revolução em infotech se fundir à biotech. Isso tornará possível hackear não apenas seu smartphone ou e-mail, mas seu cérebro. Reunir uma grande quantia de dados sobre corpo e cérebro de alguém. “Para nos preparar para esse tipo de mundo, que acredito que virá mais cedo do que as pessoas percebem, precisamos de um antivírus para o cérebro e a mente”, defendeu. Mesmo hoje, alertou Harari, as fake news basicamente usam nossas próprias fraquezas contra nós. Se os hackers ou bots descobrirem que você já tem algum preconceito contra um grupo particular de pessoas, vão te mostrar fake news sobre aquele grupo, porque você vai ter uma urgência irresistível de clicar e facilmente acreditará, uma vez que já tem o preconceito preexistente. “Quero um antivírus para a mente que sirva a mim e não a nenhuma corporação. E me alerte que estou sendo manipulado e até possa bloquear esse tipo de manipulação”, disse. Por fim, o filósofo alertou ao fato de que deveríamos concordar que como seres humanos sabemos pouco sobre nós mesmos. Temos essa noção ou ilusão de livre arbítrio, que controlamos completamente nossas vidas, decisões e opiniões e nos conhecemos, mas este não é o caso: “Muito das nossas opiniões e decisões são resultado de processos externos que não entendemos e precisamos de ajuda nesta era em proteger nós mesmos dessas novas formas de manipulação”.

 

Fonte:  Niko Woischnik,
Meio&Mensagem