Será que é impressão minha ou a palavra “parceria” se tornou mais presente no mundo profissional nos últimos anos? Antes falávamos de parcerias musicais, parcerias nas artes de forma geral, e até parcerias nos crimes, meio Bonnie & Clyde… mas, no mundo corporativo, haviam apenas as parcerias “estratégicas”, que o próprio nome já dava todo um caráter esporádico e especial.

Talvez pela complexidade do mundo atual, talvez pela urgência de tudo e todos, a verdade é que descobrimos que não sabemos tudo, nem precisamos fazer tudo sozinhos. E, ao reconhecer a necessidade do outro, fomos transformando fornecedores, funcionários, colegas de trabalho, amigos, sócios, terceirizados, concorrentes etc. em “parceiros”. Mas será essa a melhor alternativa todos os casos? O que separa uma parceria de sucesso das demais?

Segundo o Michaelis, parceiro é:
1. O que está em parceria por interesse comum, geralmente em negócios; cúmplice, sócio.
2. Que não tem ou quase não tem diferença em relação a outro; igual, par, semelhante.

Ou seja, a parceria aplicável a área de negócios engloba dois conceitos. De um lado, a existência de um objetivo comum. De outro, a não diferenciação entre as forças dos pares. Será então que um funcionário pode ser parceiro de quem o emprega? Será que fornecedor e comprador podem ter uma relação de parceria? E pessoas que competem pelo mesmo mercado ou, no caso de colegas de trabalho, pela mesma promoção?

Eu tenho que confessar que no meio de Consultoria, Desenvolvimento Humano, Coaching, parceria é algo super comum. O mesmo vale para quase todos os empreendedores e microempreendedores. Qual a alternativa para dar conta de tudo que deve ser feito? Como otimizar o tempo e os recursos?

Eu mesma tenho duas parcerias, que funcionam bastante bem. Mas já tive várias outras que não deram certo. E outras que funcionaram por um período determinado. E foi analisando essa história recente que descobri que minhas parcerias de sucesso são as com pessoas que querem plantar, e não com as que querem apenas pescar.

Plantar implica num compromisso com a construção, um investimento no médio e no longo prazo. Você tem um objetivo, escolhe o que irá plantar, prepara o terreno, vê as necessidades, e se compromete. Cuida, corrige, melhora a terra, implementa novas técnicas, busca novas soluções. Se a ideia é boa, vale a pena o esforço e o investimento. Se erra, corrige e tenta fazer melhor. Eu acredito na construção, no planejamento, na ação e no aprendizado. Busco sempre fazer algo diferente, mas com simplicidade. Tudo isso requer muito trabalho e tempo. Fazer, testar, aprender, implementar, ajustar etc. Na hora da colheita, a sensação de realização e de que fazer junto fez toda a diferença.

Pescar por sua vez, também tem um objetivo. Você o estabelece, escolhe o local e joga o anzol ou a rede. Se o resultado não vem, é só mudar o local e começar de novo. Procurar outro peixe, outro mar, outro meio de chegar ao cardume. O parceiro é um braço, uma força a mais para atingir o que se pretende. É mais fácil determinar o resultado de cada um. Um aprimora a técnica do outro. Um aprende com o outro.

Admiro as pessoas que pescam. Que monitoram onde estão os peixes e vão lá e obtém um ótimo resultado. Necessariamente não precisam de tempo para desenvolver nada, apenas para combinar qual o papel de cada um. Alta produtividade ou novos mares. O envolvimento é proporcional ao resultado imediato.

Consigo fazer isso com alguns de meus trabalhos. Mas na hora de estabelecer uma parceria, não funciona do mesmo jeito. A sensação do compromisso é diferente.Preciso de parcerias que apreciem essa forma de desenvolver negócios, em construir algo novo, em melhorar todo o dia. Preciso de confiança. Parcerias onde você se envolve com o cliente, conhece o que precisa, e aí co-cria a solução.

Não sei se mais alguém já pensou nisso. Mas você deve identificar o que funciona para você.
Seja você um plantador ou um pescador, há alguns pontos que, na minha opinião, são críticos para o sucesso.

  1. Objetivo comum. Qual é o seu objetivo com a parceria? Que benefícios você espera ao fechar a parceria. Esse é um ponto chave. Saber para que a parceria foi formada, quais seus objetivos e interesses, e se eles são comuns aos diferentes parceiros, ou pelo menos complementares é crítico. Caso contrário, trabalharemos em direções contrárias. Aonde queremos chegar, quando queremos chegar e quais os esforços estamos dispostos a fazer para atingir o objetivo.
  2. Alinhamento de valores. Há coisas das quais não abrimos mão. Principalmente quando temos nosso nome, nossa reputação ligada à empresa, ou seja, quando empreendemos, a importância de valores comuns pode ser um fator crítico para fechar ou não a parceria. Qual a importância do trabalho na sua vida? Como vocês lidam com risco?
  3. Motivos claros para a parceria. Entender para que você precisa de um parceiro antes de fechar a parceria pode parecer óbvio, mas não precisamos de todos os parceiros que se apresentam na nossa vida. Temos a tendência a achar sempre que quanto mais melhor, mas não é o caso de quase nada na vida, talvez só saúde. O ideal é que a parceria venha a complementar nossos talentos, nossas necessidades, nosso negócio. O parceiro deve ser necessário, deve adicionar valor para você e vice-versa. Isso significa que é preciso conhecer bem seu trabalho, o que você faz e o que precisa fazer e como um parceiro pode ajudá-lo nesse processo. Você pode ter um parceiro com uma área de conhecimento diferente, níveis diferentes de recursos (financeiros ou operacionais), etc. Entender o papel de um parceiro para o crescimento ou manutenção ou expansão do seu negócio é fundamental. E o mesmo vale para você: qual é a sua importância para o parceiro? Isso gera previsibilidade e apoia a construção da confiança.
  4. Regras. A determinação e as condições da parceria devem estar bastante claras, desde o momento inicial da negociação. Precisamos entender os limites, os acordos, a hierarquia de decisão, qual é o quadrado de quem. Se existe espaço para outros parceiros, se há algo que é de propriedade intelectual de apenas um. Como será a formalização da parceria, se haverá. Se ela é transparente para o mundo externo (não é clara e comunicada), ou se é parte da estratégia de divulgação. E a partir daí fazer um exercício de desapego e de confiança. Parceiros são iguais, lembra?
  5. Duração. Saber até onde você quer manter a parceria também deve ser combinado. Algumas vezes queremos um parceiro até nos estruturarmos para fazer sozinhos. Às vezes, mesmo com todos os cuidados, a parceria não funciona. Estabelecer momentos de revisão e avaliação podem ser ferramentas simples, mas que fazem toda a diferença. E dependendo do tipo de parceiro você é (se plantador ou pescador), esse tempo pode ser diferente. Pré-determine reuniões, rotina, revisões.
  6. Avalie periodicamente. Algumas vezes já vivi parcerias que eram chamadas assim, mas que as pessoas envolvidas em um projeto queriam fazer as mesmas coisas e deixar as coisas “chatas” para apenas uma pessoa fazer. Ou, parcerias onde a voz dos parceiros não era ouvida. Onde se chamam parceiros, mas no fundo queríamos alguém para “solucionar nossos problemas” e dividir os custos ou ter acesso a alguma ferramenta. Determine os indicadores de sucesso, o tempo esperado para os resultados. E seja sincero.
  7. Pare e reflita como se sente com a parceria. Pare por alguns minutos e reflita como você se sente sobre o parceiro e sobre a parceria. Sobre o que construíram juntos, o que deu certo, o que conquistaram e querem conquistar. Não deixe a rotina perpetuar um problema, para evitar conflito. Conversar é importante. Mas, antes de mais nada, ouça o que você mesmo sente sobre esse assunto.

Trabalhar em conjunto é maravilhoso e, de verdade, é só assim que conseguimos atingir uma performance excelente na maioria das coisas. Não temos todos os talentos. Mas um time pode ter. Um parceiro pode agregar muito. Mas, negócios são negócios. E deixar tudo claro, definido antes de fechar uma parceria, pode poupar muito tempo, muita dor de cabeça e, inclusive, a perda de algumas amizades.

Se você tiver comentários, dúvidas ou sugestões sobre o conteúdo desse artigo, adoraria ouvir. Você pode fazer isso aqui no meu perfil do LinkedIn, ou enviar um e-mail para anapaula.alfredo@agregat.com.br. Quem sabe surge uma nova e bem sucedida parceria a partir daí?

Por Ana Paula Alfredo – Fundadora da Agrégat Consultoria – Especialista em Liderança e Desenvolvimento de Pessoas.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.