Reinventar-se. Você já sentiu vontade de começar de novo? De começar uma nova etapa na sua carreira, por exemplo?

O desejo pela reinvenção é bastante comum quando enfrentamos alguma crise, algo que nos faça parar, de um jeito ou de outro, e buscar uma solução. Essa pausa, esses pensamentos, ajudam a delinear os objetivos, o que queremos alcançar. Visualizar e começar a se acostumar com uma nova realidade e fazer planos, muitos planos.

Mas essa decisão é apenas uma expressão da nossa vontade. É preciso muito mais, para que ela saia do mundo das ideias e se torne real.

Vamos usar como exemplo, mais uma vez, a pandemia. Por diferentes motivos, várias pessoas decidiram repensar suas carreiras. Os impulsionadores dessa vontade foram vários, como a perda do emprego, a mudança de trabalho para um outro tipo de rotina, a experiência de ter os filhos e a casa mais perto, a oportunidade de experimentar um outro estilo de vida, vivendo fora das grandes cidades, ou tendo horários alternativos.

Independente da razão, muitas pessoas foram meio que empurradas a repensarem tudo. O mundo havia mudado e eles precisavam se adaptar para sobreviver. E nesse caminho, foram obrigadas a experimentar novos arranjos, coisas que todos tinham certeza de que não funcionava, e se surpreenderam. E o maior ganho foram os momentos para colocar as coisas no seu lugar. Pensar sobre o que é importante e do que realmente precisam para ser felizes.

Mas, com a proximidade do fim da “parada obrigatória” dada pelo fechamento de alguns serviços e pelas regras pandêmicas, a rotina parece novamente caminhar para um outro lugar. E como fazer para que os aprendizados e decisões tomados durante o período prolongado de reflexão não sejam rapidamente atropelados pelo novo antigo normal? Como fazer para não deixar as coisas se acomodarem, e adiarmos indefinidamente nossas decisões, que pareciam tão claras?

Não vamos esquecer que o ser humano prefere a segurança. Nos sentimos confortáveis com aquilo que nos é familiar, conhecido. E mesmo que não nos agrade 100%, acabamos tolerando um pouco mais pela decisão de permanecer e não mudar.

Hermínia Ibarra é uma estudiosa do desenvolvimento organizacional e há muitos anos se dedica às transições de carreira.

E ela menciona que é mais comum, nos momentos de pausa, que tomemos decisões sobre o que queremos ser, reflexões existenciais. E isso vale também para carreira. Mas esse foco no pensar, é apenas um bom começo, mas apenas isso. É preciso muito mais para que levemos para a AÇÃO.

O compromisso mental com a mudança precisa ser acompanhado pela coragem de começar e mudar. Hermínia define 3 fases, que são fundamentais para as pessoas que querem realmente realizar uma transição de carreira, ou uma grande mudança na vida, mas agindo para isso:

A primeira é a “separação”, a segunda a “liminaridade” e a terceira, a “reintegração”.

  1. A SEPARAÇÃO é o que o nome diz. Como nos afastamos da realidade que temos hoje e nos aproximamos da realidade desejada. Segundo uma pesquisa, as pessoas que, durante a pandemia, se mudaram para viver em um lugar diferente, tem maiores chances de manter as mudanças. E o motivo é o que chamamos de DESCONTINUIDADE DO HÁBITO. Quando nos afastamos do que nos é familiar, ficamos mais flexíveis e menos propensos a abandonar antigos costumes e velhas formas de ser. A mudança sempre começa com uma separação, com um afastamento. Alguns exemplos de grandes mudanças são quando jovens nos EUA por exemplo vão para as universidades, quando se decide imigrar para um outro país. Essa separação faz com que sejamos obrigados a conviver com pessoas que são diferentes de nós, e a ter que restabelecer nossas conexões e redes de trabalho, nos forçando o afastamento da rede de relacionamentos que definiram nossas vidas profissionais de antes. E a caminhar para uma maior seletividade, de acordo com nosso novo momento.

A separação seria então uma fase de forçar a mudança. Romper alguns laços e começar a criar novas bases de sustentação.

  1. A LIMINARIDADE. Liminaridade é um estado subjetivo, de ordem psicológica, neurológica ou metafísica, consciente ou inconsciente, de estar no limite ou entre dois estados diferentes de existência. É realmente experimentar algo novo, sem ainda abrir mão definitivamente. A criação de momentos que podemos chamar de RITOS DE PASSAGEM. Uma das coisas que limita a mudança é a incerteza do quando seremos bem-sucedidos ou felizes no novo caminho. Muitas vezes temos mais de uma opção para pensar e criar oportunidades para viver essas experiências é revelador. E isso pode acontecer tanto buscando novos conhecimentos, fazendo serviços voluntários e gratuitos, se oferecendo para diferentes projetos… Vou usar meu caso, como exemplo. Quando decidi fazer uma transição de carreira, achava que meu caminho seria a academia. Eu faria mestrado, doutorado e trabalharia como professora e pesquisadora. E talvez, algo com consultoria. Fiz todo o processo seletivo para o mestrado na área de Organizações, combinei com meu marido e filho e comecei a estudar. Terminei o mestrado e vi que a academia era bem complicada, mas que eu poderia dar aulas em alguns MBA´s. Mas sentia falta de algo mais. Comecei a fazer consultorias pró-bono para alguns empreendedores na área de negócios, fiz associação com uma empresa para buscar maior expertise, e comecei a investigar o que havia como alternativa. Nessa época descobri o coaching, o trabalho com grupos, e comecei a fazer as formações e, de novo, a experimentar. Até que percebi que era isso. E me senti segura para mudar minha empresa para a nova área, e estou aqui hoje.

É preciso, no entanto, delimitar um período, tanto para investir, como para buscar chegar a uma decisão. E sempre ir aprendendo e questionando. Já estou pronto? O que preciso aprender para tomar minha decisão? Com quem preciso conversar? Quem pode me ajudar? O que será uma carreira e o que será apenas um hobby ou uma diversão?

A liminaridade é então a ETAPA onde acontece a TRANSIÇÃO. Onde começamos de fato a experimentar as opções, quando há várias, ou a delimitar o que muda na nossa vida.

  1. A REINTEGRAÇÃO. Essa é uma fase delicada, porque é quando as mudanças precisam ser consolidadas. Um exemplo muito significativo é com relação à pesquisa realizada por Alexandra Michel, de Wharton, que investigava consequências físicas do excesso de trabalho em alguns profissionais do mercado financeiro. Para eles, os hábitos de trabalho excessivo estavam tão incorporados a suas vidas que, mesmo com novos trabalhos, em novas empresas, muitos tiveram recaídas. As novas posições demandavam menos, mas eles não. Continuaram exigindo deles mesmo e não tinham conseguido se afastar psicologicamente. O que eles concluíram é que a descontinuidade do hábito, que conseguimos com a separação, abre uma pequena janela de oportunidade que, se conseguirmos consolidar por algum tempo, teremos mais chances de sucesso. Alguns estudos apontam para 3 meses. E precisamos aproveitar o fôlego dado pelas conquistas dos primeiros dias, e celebrar cada momento que conseguirmos manter esse compromisso. Para que ele não vá perdendo a força igual àquela energia pós férias que parece que você gasta rapidamente.

Reveja onde você está e o que você quer realmente se comprometer em mudar em sua carreira ou em qualquer coisa da sua vida. Como transformar isso em um novo hábito? Como se comprometer diariamente, até que já seja tão automático que faça parte de quem você é, e principalmente do seu agir todos os dias? Caso contrário, o conhecimento, o aprendizado, será uma lembrança, e você voltará para o antigo emprego, para o antigo dia a dia, como se nada tivesse acontecido.

Fonte: Ana Paula Alfredo,  Mestre em administração de empresas e trabalha com Desenvolvimento Humano e Organizacional na Agrégat Consultoria.