Qualquer pessoa atenta ao movimento da transformação digital certamente já ouviu falar da expressão “mundo VUCA”.

Cunhada na década de 90 por militares norte-americanos para descrever as transformações da sociedade da época, a ideia era usar o conceito para prever possíveis novos conflitos e preparar as forças armadas antecipadamente a eles. Praticamente uma base para contingência e gestões de crise, e foi isso que o mercado corporativo vislumbrou quando passou a aplicar o acrônimo à realidade dos negócios nos anos 2000.

A partir de então, o conceito de mundo VUCA se propôs a caracterizar uma realidade na qual as empresas precisavam lidar com um cenário de mudanças constantes na tecnologia, na cultura e na sociedade, marcado por volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade.

Porém, como a própria expressão parecia prever que não daria conta de definir o mundo dos negócios por muito tempo justamente pela sua volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade, atualmente, com a cambalhota que o mundo deu em razão da pandemia por coronavírus, temos mais um acrônimo que se propõe a criar uma nova perspectiva da economia global e ajudar as organizações a se tornarem aptas a lidar com uma realidade completamente nova – e inesperada, que forçou as empresas do mundo todo a dedicarem esforços a uma readaptação sem precedentes. Se até então o negócio era mundo VUCA, a questão agora é o mundo BANI.

Mundo VUCA vs. Mundo BANI?

Mas, o que isso significa? Que todo o trabalho que tivemos para nos adaptarmos ao mundo VUCA ficou para trás? Que ninguém mais precisa se preocupar com volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade no universo corporativo?

Não exatamente. O mundo BANI vem trazer algumas novas preocupações, mas, hoje, ele está mais para complementar ao mundo VUCA do que para substituto. Como tantas outras mudanças pelas quais vimos passando nos últimos tempos, BANI tem relação direta com a nova realidade imposta, no mundo todo, pela pandemia por coronavírus. Nenhum país, organização, equipe, líder ou profissional está imune ao impacto desse vírus. Por isso, a maneira como as pessoas vivem e trabalham nunca mais será a mesma, e a forma de consumir produtos e serviços também não. Se, quando falamos em VUCA pensamos em volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade, o BANI chegou para adicionar algumas preocupações à já complexa – e essa é uma palavra que usamos e usaremos muito ainda no contexto da Nova Economia – lista de realidades e cenários a considerar.

O que a conceituação de mundo BANI, criada pelo antropólogo norte-americano Jamais Cascio diante do colapso global causado pela pandemia por Covid-19 e que significa “Brittle, Anxious, Nonlinear, Incomprehensible” (Fragilidade, Ansiedade, Não-linearidade e Incompreensibilidade, em tradução adaptada) defende?

O mundo está mais FRÁGIL, demandando mais capacidade e resiliência:

A pandemia veio fazer o mundo perceber, da pior forma, que ricos, pobres, empresas gigantescas e pequenos negócios, economias maduras, emergentes e de terceiro mundo têm algo em comum: estão todos sujeitos ao inesperado e a incidentes de qualquer natureza. No mundo dos negócios, isso significa que as empresas estão, neste momento da história, ainda mais expostas a crises. É necessário, então, que a antecipação de problemas e a capacidade de lidar com erros e novos contextos de uma hora para outra se tornem habilidades cada vez mais valorizadas.

… mais ANSIOSO, demandando mais empatia e atenção plena:

A possibilidade de incidentes no meio do caminho gera receio, medo e incertezas que, por fim, promovem ansiedade nos indivíduos e em economias ao redor do mundo, e isso impacta expressivamente no mercado de trabalho.

Se as empresas são feitas de pessoas e elas estão vivendo no limite, apagando incêndios recorrentes e com pânico em relação ao coronavírus e às mudanças que a pandemia impôs em todo o planeta, a tendência é que essa sensação geral intensifique o senso de urgência, baseando muitas decisões que até antes de 2020 poderiam ter um tempo maior de dedicação para serem tomadas.

…NÃO-LINEAR, precisando de contexto e adaptabilidade:

A previsibilidade gerada pela linearidade das coisas não é uma realidade no mundo BANI. Segundo o criador do conceito, a não-linearidade é uma característica marcante da atual realidade do mundo e do próprio comportamento da sociedade.

Cascio afirma que vivemos em um mundo cujos acontecimentos recentes parecem desproporcionais e desconectados, e essa impressão se deve à nova perspectiva das sociedades a partir do isolamento social em razão da pandemia. No mundo dos negócios, isso se reflete em uma realidade na qual não é possível fazer organizações estruturadas, pois não há mais estruturas bem definidas, não há um padrão. Assim, o que até então partia de planejamentos bem delineados e de longo prazo não faz mais sentido.

… e INCOMPREENSÍVEL, exigindo mais transparência e atenção à intuição:

A grande quantidade de dados e seus mais diferentes entendimentos e interpretações geraram um caos: o excesso de informação tornou o mundo se não impossível, muito difícil de entender. Chegamos a um ponto em que, de tanto desenvolvermos novas tecnologias de dados, viramos reféns delas e acabamos deixando de lado o que está por trás desses dados e nossa própria intuição.

É bem comum, hoje em dia, encontrar significados diversos para a mesma coisa, a depender da fonte, e isso causa uma confusão sem precedentes em diversos âmbitos. A incompreensibilidade é o resultado final da sobrecarga de informações a que estamos expostos.

Mundo BANI: #naotafacilpraninguem

O importante é que fique claro que não é porque o conceito de mundo BANI surgiu que não temos mais que nos preocupar com o mundo VUCA. A realidade deixou de ser volátil, incerta, complexa e ambígua? Não. Ela só ganhou novas características que complementam o conceito anterior.

Temos agora, tudo junto e misturado, os aspectos VUCA e BANI permeando todo o contexto do mundo empresarial: as decisões, as relações de trabalho, a produtividade, os resultados e os desafios.

Então, como navegar nesse mundo dominado pelos “gêmeos do apocalipse corporativo”?

Vai demandar esforço e readaptação de pessoas e empresas no mundo todo, mas é possível. A primeira coisa que precisamos ter em mente é que uma mudança de comportamento e a avaliação de novas perspectivas são essenciais. Além disso, incrementar habilidades de design thinking tende a ser produtivo no mundo VUCA-BANI. Desenvolver mindset de crescimento, praticar a empatia, tornar-se mais adaptável e não ter medo de imaginar, testar e, principalmente, errar, são iniciativas mandatórias dentro da Nova Economia.

Ou seja, esse papo de mundo BANI não deve apavorar ninguém, servindo apenas para confirmar o que o VUCA vem nos dizendo há anos: para crescer em um cenário como o atual, em que empresas e pessoas precisam se readaptar de diversas formas para sobreviver aos desafios cada vez mais difíceis que lhe são impostos, é necessário seguirmos no rumo que o mundo VUCA apontou e nos remodelarmos para superar os percalços que surgiram com a realidade pandêmica e seus impactos no universo corporativo.

No fim, permanecemos em um mundo VUCA agravado pelo BANI. Fácil não será, mas impossível também não. Você está preparado?

Fonte: Afferolab