A liderança feminina como objeto de estudo sempre foi uma área de interesse. Talvez pela minha própria trajetória de mais de 25 anos em organizações, que me fez esbarrar com muitos exemplos, com muitas histórias. Mas uma vez li uma matéria na revista Isto é com a Rosiska Darcy de Oliveira – advogada, escritora, imortal da Academia Brasileira de Letras, e feminista, que chamou muito a minha atenção.

Rosiska falava da luta pela igualdade com os homens, que, na opinião dela, era uma luta equivocada. Para ela, deveríamos ter lutado pela igualdade de direitos civis. E por que isso? Porque para assumir essa “igualdade” nos comprometemos a ser tudo o tempo todo. Para o mundo do trabalho, negamos nossa vida em casa e familiar e prometemos que se recebêssemos a igualdade, nossos “chefes” talvez nem percebessem  que “somos mulheres”. E, em casa, assumimos o mesmo compromisso com nossos parceiros, prometendo que eles nem notariam que estávamos trabalhando. E isso é, em grande parte, a origem de toda a culpa, de todo esgotamento, das triplas jornadas a que as mulheres se submetem todos os dias.

Separamos a vida profissional da vida particular, como se isso fosse possível. E como no cinema, assumimos dois papéis (pelo menos dois), e quase enlouquecemos para que todos os demais personagens não sejam “afetados” pelo “outro lado da vida”.

Só que essa pandemia provocou um outro efeito colateral. As vidas se misturaram. Não há mais como separar a vida do trabalho da vida doméstica. O espaço corporativo  invadiu as casas. E é bem comum (e divertido!) a mistura de cenários. Gatos passeiam pelas telas de vídeo conferência, calopsitas viram trilhas sonoras de chamadas telefônicas, crianças fofas entram na frente do vídeo e se sentam no colo das mamães e oferecem biscoito para o chefe. Ou seja, a vida acontece.

As mulheres, então acostumadas a separar os mundos, têm que se render a SEREM HUMANAS. E, como tal, ter uma vida. Apenas uma.

A infraestrutura, tão bem montada com creches, babás, ajudantes, vovós, tias, etc, de repente foi reduzida a nada pelo isolamento social, pelo fechamento das escolas e pela maior ameaça ao grupo de risco. As horas antes dedicadas exclusivamente ao trabalho são combinadas com o ensino online das crianças, com todas as tarefas de casa e ainda com nosso salão particular, onde temos que nos tornar lindas, sem cabelos brancos e, ainda, cortar o cabelo de maridos e crianças. Sério?

No meio dessa loucura, as mulheres estão percebendo que não dá. Não dá para fazer tudo. É impossível. O tempo se expande pela quantidade de tarefas, como dito na Lei de Parkinson (que lei é essa?), mas até ela tem um limite. As 24 horas do dia são apenas 24 horas e não 48.

E o que fazer? Continuar vivendo.

Nós temos que entender nossos limites. Chefes homens e mulheres têm que entender o que está se passando. Não dá para fazer tudo igualzinho a como era no escritório. Não dá para ter a mesma dedicação sem toda a estrutura que tínhamos. Não dá para fingir que sua casa tem o dobro do tamanho e um super home office, quando o que você tem são dois quartos e que você trabalha na sala, onde está a única televisão que funciona como babá eletrônica quando você está em reunião. Não dá para fingir que as crianças não almoçam cedo,  que não precisam de lanchinhos, e que muitas não precisam de ajuda no banheiro. Tudo isso tem que estar lá no alto da lista de prioridades.

E não são só as mães. Os pais também estão nisso. E todas as mulheres e homens sem filhos. As vidas se misturaram. Nem todo mundo tem computador em casa, nem em quantidade para todos os moradores. A banda de internet é boa para uso doméstico, mas falha pelo alto uso por muitos moradores. As webcams antes eram só usadas para ligações para a vovó em viagem e não têm a mesma definição de áudio e vídeo que se espera dos equipamentos mais modernos.

E sabe do que mais? Nem precisa. Ou pelo menos na maioria das vezes não precisa.

Todos estamos estressados e com medo. Medo da doença, de perder pessoas queridas e de perder os empregos. Por isso, a pressão de fingir que nada está acontecendo continua, enquanto você ignora a campainha com a entrega do supermercado que você esperou três semanas para chegar e resolveria os problemas do almoço e jantar daquela semana.

Os chefes também têm medo de se sentir fracos, incompetentes, “bonzinhos”, não decisivos, deixando a rotina mais frouxa, não tendo controle do que está sendo feito em casa, e inventam reuniões intermináveis e com frequência desnecessária. Alguns chefes aproveitam a insônia durante a pandemia e enviam e-mails às 2 da manhã, com aviso de recebimento (?) e, sem surpresa, às vezes recebem respostas antes das 4, com o resultado da análise solicitada.

Os grupos de Whatsapp viraram o novo cartão de ponto, com bons dias pontuais às 8 ou às 9 da manhã, dependendo do expediente. E se você demorar alguns minutos recebe um “cadê o dorminhoco”, mesmo que você tenha acordado às 5 da manhã para adiantar tudo.

Isso não é sustentável.

Tomara que logo alcancemos os indicadores para que o isolamento termine, mas até lá precisamos mais do que nunca agir com EMPATIA, ser mais TOLERANTES. É claro que há trabalho para ser feito e precisa ser feito. Mas algumas coisas vão sair do controle.

Nos dias que estamos vivendo temos que repensar o tempo. O que realmente agrega valor? Como é o horário que funciona para todos? Como podemos adaptar nossas agendas? E realmente gastar um momento para entender como cada um está enfrentando esse período tão desafiador.

É hora de ser mais gente do que nunca. Estamos no meio de uma crise jamais vivida. E teremos que mais uma vez reaprender a viver. E é um vírus, não de computador, que está nos dando a lição do que realmente é importante para a humanidade. Saúde para todos nós.

Fonte: Ana Paula Alfredo – AGREGAT

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.