Amo ler e aprender coisas novas. Mas o tempo que tenho acaba sendo menor do que minhas expectativas, e muitas vezes acabo focando no que mais me chama a atenção.

A tirania da positividade excessiva foi um desses títulos que me capturou em instantes. Menos pela surpresa do título, aparentemente, paradoxal, e mais pela identificação.

Talvez essa seja uma daquelas coisas que não devemos confessar publicamente, muito menos em um artigo, mas a verdade é que, às vezes, a positividade excessiva me cansa.

É claro que prefiro a positividade à negatividade. Lidar com alguém que só reclama de tudo, que arrasta correntes da dificuldade por onde quer que vá, e só olha para o lado vazio do copo, é horrível. Mas a positividade em demasia também não funciona bem para mim.

Conheci o trabalho da Dra. Susan David há alguns anos, quando ela escreveu seu livro sobre a Agilidade Emocional.

Agilidade Emocional é a capacidade de gerenciar as suas emoções ao invés de lutar contra elas, ou escondê-las. Envolve garimpar, pesquisar, e aceitar nossas emoções como parte de nossas vidas, de forma que possamos tomar nossas decisões e seguir em frente.

Fingir que as emoções não existem, ou pelo menos, que as emoções negativas não existem, não é um comportamento saudável. Imaginar que existe um mundo onde o mal não existe, além de ingênuo, só nos leva à frustração e a expectativas irrealistas sobre o como as coisas acontecem.

O desespero, o medo, a raiva, todos são sentimentos que fazem parte de ser humano e, portanto, estão presentes no nosso dia a dia.

As pessoas excessivamente positivas meio que “editam a realidade”, como se minimizassem a importância de alguns acontecimentos e como se nos achassem “mimizentos” para reclamar. Como se algumas dores, acontecimentos desagradáveis e algumas emoções não fossem dignas de serem experimentadas e vividas.

Quando nos sentimos tristes, desesperados ou com medo, muitas vezes recorremos a uma pessoa amiga. Nosso objetivo é ser acolhido, ouvido e só. Mas, quando, ao invés da compreensão, a pessoa começa com um discurso Pollyana, com frases como “olhe para o lado positivo”, “afaste essa negatividade”, “poderia ser muito pior, você tem que agradecer” ou “há tanta gente sofrendo tão mais por aí”, por mais que tudo isso seja verdade, a sensação é a de estar conversando com um livro de autoajuda, daqueles bem sem conteúdo, e nos calamos e nos fechamos.

O pior é que, muitas vezes, a pessoa acha que ajudou, afinal, você parou de falar de problemas, e repete esse comportamento muitas outras vezes. Mas nada foi solucionado. Houve apenas uma desconexão. E uma escolha por continuar com o medo, com a raiva ou tristeza, mas sozinho.

As pessoas positivas têm ótimas intenções. Mas esquecem de que sentimentos não evaporam a partir de palavras. E que precisamos refletir, encontrar soluções, para depois partir para a ação.

Quando ouvi a Susan David chamando esse comportamento de tirania da positividade, automaticamente me lembrei de tantas vezes que me senti assim. Nossas dificuldades, nossos problemas são nossos e só nós podemos julgar a dimensão que eles têm, a partir de nossas capacidades para lidar com eles.

Fingir que você não sente determinada emoção ou que o seu problema não existe, não irá resolver nada. É como empurrar a poeira para debaixo do tapete. Você para de olhar para ela, mas ela está lá. Não irá sumir.

Emoções se sentimentos não são bons ou maus. São apenas emoções.

E nos sinalizam o que está acontecendo conosco. A raiva pode ser um excelente impulsionador, a tristeza pode nos levar a uma decisão importante, e a alegria momentânea até pode nos prejudicar já que pode nos fazer adiar algo que já deveríamos ter resolvido.

Nossas emoções são a forma que temos de entender o impacto que os outros e os acontecimentos geram em nós. E são excelentes oportunidades para refletirmos e aprendermos mais sobre nós mesmos e sobre os outros.

É impossível ser feliz todo o tempo.

Talvez, se fôssemos, não seríamos capazes de entender como é bom esse sentimento. É preciso uma pausa na alegria, para perceber que ela voltou. Como no filme Divertidamente.

​Acolha a dor e a tristeza. Dance com ela. Descubra o que ela quer dizer. E, antes de tentar animar um amigo com um discurso positivo, veja se essa é realmente a melhor escolha. Talvez seja melhor apenas se sentar ao lado e ouvir, ainda que ele ou ela não fale nada.

Como diria Nietzsche,
“Um amigo deve ser mestre tanto na arte de adivinhar como na de permanecer calado”.

Ana Paula Alfredo,  Mestre em administração de empresas e trabalha com Desenvolvimento Humano e Organizacional na Agrégat Consultoria.